Nova York, Estados Unidos, 10/2/2011 – Trabalhar com organizações de base é a única forma genuína de ajudar as pessoas, segundo Yifat Susskind, a nova diretora-executiva da organização de mulheres Madre, com sede nesta cidade. Nascida em Israel, começou a trabalhar como ativista no Movimento Pacifista de Mulheres Israelenses, onde viu de perto a importância das comunidades nos esforços de paz. “Criamos relações de longo prazo com organizações de mulheres e, fazendo isso, construímos a viabilidade do movimento mundial”, disse em entrevista à IPS.
IPS: Como enfrentam desastres inesperados, como o terremoto do Haiti?
YIFAT SUSSKIND: A Madre já trabalhava no Haiti desde 1994. Parte da razão de o nosso trabalho depois do terremoto ter sido tão efetivo e forte é que não caímos de repente em uma crise para construir algo do nada. Pudemos responder quando aconteceu o terremoto da mesma forma como alguém atende um amigo que tem uma crise. Eram mulheres com as quais trabalhávamos por muitos anos e fazíamos progressos com elas, assim, pudemos ativar essas redes que construímos durante anos e responder de imediato e de forma efetiva, considerando que nossa organização é pequena. Nossa intenção é continuar trabalhando no Haiti por muitos anos mais. Por isto, procuramos não saltar de uma crise para outra. Construímos relações de longo prazo com as organizações de mulheres e, dessa forma, construímos a viabilidade do movimento mundial feminista.
IPS: Como, exatamente, ajudam suas organizações pares?
YS: Fazemos várias coisas. Uma delas é tratar de coletar dinheiro, mas esta é apenas uma parte do nosso programa. O que fazemos é trabalhar com mulheres em nível comunitário para criar o programa que elas querem. E fazemos isto porque reconhecemos que as mulheres em nível comunitário têm a experiência e a compreensão integral da crise que enfrentam. Os especialistas de fora não têm este conhecimento. Estas mulheres não só entendem a situação em que se encontram, como compreendem bem o que devem mudar. O problema não é que não têm conhecimento, e sim o de não terem o poder para mudar. Isto é, não possuem o dinheiro ou a capacitação, ou, talvez, nunca foram enviadas à escola, por isso não sabem ler. Têm muitos obstáculos para chegar aos políticos, à mídia e à polícia. Por exemplo, uma das coisas que estamos fazendo é trabalhar para garantir às mulheres um lugar na mesa de decisões. No Haiti conseguimos, mas foi uma luta muito dura.
IPS: Qual a fonte de dinheiro da Madre?
YS: A maior parte dos recursos vem de pequenas fundações. E o mais interessante sobre nossa organização é que uma grande proporção de nossa renda não é de subvenções. Isto é incomum para uma organização internacional como esta. A parte mais importante de nosso financiamento não vem de fundações, mas de indivíduos. Em sua maioria mulheres, mas também homens, nos Estados Unidos e em todo o mundo, que sabem o que fazemos e entendem o poder do trabalho da Madre, e, então, enviam um pouco de dinheiro, US$ 10 por mês ou US$ 50 por ano, ou mesmo mais. Realmente, esta é a parte mais valiosa de nosso financiamento, a que vem de indivíduos que veem a si mesmos como parte da Madre e dos movimentos sociais que apoiamos.
IPS: Qual sua opinião sobre a criação da agência ONU Mulheres?
YS: Considero uma boa ideia. Estamos contentes por ver criada a agência. A dúvida agora é se vai ser apenas um escudo que os governos usarão para dizer que estão tratando dos problemas das mulheres ou se, de fato, vão enfrentá-los. Isso dependerá, em primeiro lugar, do financiamento. Seguramente, sabe-se que o orçamento da ONU Mulheres hoje é de US$ 500 milhões, e que não pode cumprir suas promessas. Por outro lado, o Banco Mundial estima que serão necessários US$ 83 bilhões para alcançar o terceiro dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, de promover a igualdade de gênero e potencializar o papel das mulheres. A disparidade entre os recursos, que todos sabem são necessários, e os recursos que os governos estão dispostos a comprometer é muito grande. E creio que isto é um reflexo do fato de não haver muita vontade política por parte dos governos para encarar a desigualdade de gênero e os direitos humanos das mulheres. Assim, continuaremos lutando. Temos uma vitória, que é a criação da agência. E isto é bom. Contudo, será uma batalha contínua obter os recursos necessários. Envolverde/IPS
Fonte: Cleo Fatoorechi, da IPS – 10/02/2011
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